A cura da homofobia.

A cura da homofobia. 

Renato Cavalher | Vice-Presidente de Criação do Grupo OM
 
 

homofobia

 

Alguns setores da igreja evangélica apoiam o tratamento da homossexualidade, como se fosse uma doença contagiosa, capaz de contaminar suas famílias e toda a sociedade. Mas o que dizer da homofobia que, essa sim, produz vítimas fatais todos os meses?

O que leva uma pessoa, independentemente de sua religião, a transformar uma rejeição por determinado gênero, cor de pele ou orientação sexual em uma atitude hostil, chegando à manifestação da violência verbal ou física? Não seria algum tipo de psicopatia ou distúrbio de personalidade? Eu acredito que sim. Nos casos relacionados à sexualidade, sugiro, inclusive, uma prescrição (nada médica) para a cura dessa patologia.

Mas, antes, vamos analisar o cenário. O Brasil é um dos países onde mais se matam gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais. Os números são estarrecedores, assim como as formas de execução, que contam com requintes de crueldade: facadas, tiros, estrangulamentos, pauladas, sufocações, apedrejamentos e até carbonização. Foram mais de 16 mil denúncias de violações nos últimos 5 anos, segundo o Ministério da Justiça e Cidadania, que por meio da sua Secretaria Especial de Direitos Humanos encaminhou ao Congresso um relatório pedindo aos parlamentares que incluam, entre outras medidas, campanhas educativas sobre o tema na previsão orçamentária de estados e municípios para o próximo ano.

Antecipando a solução, o Grupo Diginidade, pioneiro no ativismo LGBT no Paraná, nos pediu ajuda para criar um comercial com o objetivo de expor o problema da intolerância. A mensagem sugerida foi: "você não precisa aceitar, mas tem que respeitar". O público-alvo: jovens e adolescentes do sexo masculino, de boas famílias da classe média, mas que, quando em grupos, decidem atear fogo em mendigos ou quebrar lâmpadas fluorescentes na cabeça do primeiro gay que cruzarem pela frente, numa espécie de passatempo macabro.

O comercial criado foi produzido com um casting preciso. O ator que interpretou o jovem psicopata é um retrato fiel da realidade. Aparentemente normal, educado e integrado à vida social, mas que carrega dentro de si um preconceito monstro, que precisa ser domesticado. Cabe ainda a divisão em dois subgrupos. O primeiro, composto por indivíduos que, por sua personalidade forte, articulam e comandam as ações. E o segundo, formado pelos seguidores que, pela necessidade de autoafirmação ou pertencimento, se submetem à barbárie. 

Existem pessoas em alguns estados brasileiros que organizam eventos nas redes sociais para exterminar gays, oferecendo armamentos e apoio logístico. Qualquer tentativa de apelar para o bom senso dessas pessoas seria inócua, uma vez que todo sociopata é desprovido do sentimento de empatia. A ideia do comercial foi ridicularizar esse tipo de agressor, mostrando que atacar uma pessoa por não se identificar com seu comportamento é tão irracional quanto agredir uma berinjela, por não gostar do vegetal. Uma analogia extrema para caracterizar o nível doentio desse tipo de reação. É uma ilusão imaginar que se possa sensibilizar esse público com mensagens de amor e paz ou propostas de aceitação. Mas podemos (e devemos) exigir respeito.

Embora tenha recebido algumas críticas, inclusive de integrantes da comunidade LGBT, por acharem que o vídeo faz apologia à violência, a abordagem foi previamente discutida em grupos focais, com base num amplo estudo dos resultados de três recentes pesquisas nacionais que abordam a questão. Além disso, o filme foi selecionado pela Rede Globo para compor uma campanha em prol do respeito mútuo em todo o Brasil. Se vai funcionar ou não, só as estatísticas irão mostrar.

Mais do que campanhas educativas, acredito que a causa LGBT precisa de leis que a proteja, a exemplo da Lei Afonso Arinos, contra o preconceito racial, ou a Lei Maria da Penha, que combate a violência contra a mulher. Mas isso só vai acontecer quando a bancada colorida do Congresso crescer e fizer frente à bancada de evangélicos e outros conservadores. Ou seja, mais uma vez, o caminho para um país mais justo passa pelas urnas. O dia em que o preconceito puder ser punido por lei em sua origem, nos comentários, ofensas e piadinhas, o número de fatalidades deverá diminuir drasticamente.

Enquanto isso não acontece, deveria valer o exemplo da Rita Lee (extraído de outro contexto, mas que funciona perfeitamente para esse caso): "Diga não, mas seja educado. Diga não, obrigado." Sempre achei suspeito o jeito como alguns lidam com as diferenças, especialmente no que se refere à orientação sexual. O que justifica uma pessoa gastar sua energia para agredir, verbal ou fisicamente, algo que não aprecia ou alguém que não compactua com suas preferências? Talvez essa pessoa não esteja tão segura assim de suas escolhas. Provavelmente, o seu maior problema é o medo de experimentar e gostar. Fica aqui uma sugestão de receita para curar esse mal: coma berinjela. 

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Renato Cavalher é publicitário, hétero, casado, pai de dois filhos, avô da Kali e acredita que um mundo melhor passa pelo respeito em todos os níveis.

 

 


 

 

 

 

 

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