Admirável mundo novo

Admirável mundo novo

Cícero Rohr, Master, Redhook

Trilha para começar a ler o texto: “Brave New World”, Iron Maiden

 

Quando li o livro clássico com o mesmo título deste texto senti muito medo. Sem querer entrar em questões ideológicas e mesmo sabendo que o período em que a história se passa seria muito distante do nosso tempo, aquele culto à ciência e à tecnologia, a ausência total de individualidade e liberdade e, principalmente, o nível maluco de racionalidade daquela hipotética sociedade do futuro eram meio assustadores. O governo distribuía uma droga pra conter qualquer instinto de criatividade que as pessoas ainda pudessem ter. O texto gerou um monte de dúvidas na minha cabeça de adolescente sobre até onde seria possível (ou se valeria a pena) viver daquele jeito.

 

Todo início de ano revivo um pouco aquela sensação. Ao ler os relatórios de tendências diversos (trendwatchings e afins) e as teses e previsões sobre o futuro da indústria da comunicação, surgem zilhões de dúvidas sobre como será possível dar conta de acompanhar tantas e tão rápidas mudanças. Algoritmos, inteligência artificial, big data e tantas coisas que trazem uma verdadeira aflição, uma necessidade de correr atrás e se preparar pra jogar um jogo que é muito diferente do que era há não muito tempo. E mais que isso, vem a dúvida se ainda vai ser possível (e se valerá a pena) jogar esse jogo – em ano de crise como este, essa dúvida só aumenta.

 

Essa sensação nunca foi tão forte quanto em 2013, quando tive a oportunidade de participar do Festival de Cannes e assistir algumas palestras absolutamente perturbadoras – e por isso mesmo, inesquecíveis. Entre tantas outras, questões como “why should we hire inventors”, ou “this is our Kodak moment”, ou ainda “disrupt yourself before someone else comes along and does it” – num slide com uma foto de uma Blockbuster totalmente abandonada, num seminário do Google sobre seus novos e sensacionais projetos. Foi um momento de muita reflexão, que gerou horas e horas de debates (e embates!) com os amigos/colegas que também estavam lá. Enfim, o que vai acontecer com esse negócio do qual a gente faz parte?

 

(A partir daqui, a trilha é “Right Now”, do Van Halen)

 

Falar que as mudanças estão acontecendo num ritmo frenético seria chover no molhado – se começar a listar todas as coisas que estão mudando (ou já mudaram recentemente) na nossa área vai faltar espaço neste blog. As soluções para os problemas de comunicação são cada vez mais variadas e menos possíveis de serem concentradas num lugar só – seja agência, departamento de marketing, consultoria ou o que for. Cada vez mais temos que contar com parceiros das mais diversas áreas, que tragam conhecimentos complementares para nos ajudar na busca por essas soluções – incluindo até os ‘inventores’ mencionados naquela palestra de Cannes. O ‘digital’ não é uma disciplina isolada ou simplesmente mais um meio na estratégia de mídia, mas um conjunto muito amplo de tecnologias, ferramentas, plataformas, caminhos, enfim, possibilidades de falar com quem nos interessa – aliás, quando foi a última vez que um job seu (cliente ou agência) não teve algum ‘desdobramento’ digital?

 

Mas o que não mudou e não pode mudar é a nossa responsabilidade como agência. Quando alguém contrata qualquer tipo de serviço está comprando o uso ou o empréstimo de um conhecimento que não tem. É assim quando chamamos um eletricista ou buscamos um advogado, por exemplo – empresas ou profissionais que sabem fazer coisas que nós não sabemos. No caso das agências não é diferente: somos contratados para resolver problemas de comunicação e marketing (e não elétricos ou jurídicos...) que nossos clientes não conseguem resolver sozinhos. Até porque comunicação e marketing na maior parte dos casos não fazem parte do ‘core business’ deles, mas são a essência do nosso.

 

Só que a dificuldade pra isso ocorrer de fato já começa no nosso nome: agência. Quem agencia basicamente faz a intermediação do trabalho de um terceiro – no nosso caso, veículos de comunicação ou fornecedores de produção. Em outros segmentos, novas tecnologias estão acabando com os ‘agenciadores’ que não faziam nada além de simplesmente intermediar (ou ‘agenciar’): centrais de táxi, agências de turismo, corretores de imóveis, entre outros.

 

Evidentemente, nosso papel deve ir muito além disso: desenvolvemos e fazemos acontecer estratégias, ideias, raciocínios, conceitos, soluções criativas que fazem a diferença na vida dos nossos clientes. Algumas vezes precisamos buscar ajuda especializada em alguma área específica, mas a responsabilidade continua sendo nossa. Boas agências geram valor e resultados em cada job que desenvolvem. Não são meros ‘agenciadores’, mas sim protagonistas, assumindo a frente e fazendo coisas relevantes.

 

Sim, muitas mudanças estão acontecendo, mas a essência do nosso trabalho segue a mesma. A internet e todas as novas tecnologias são ferramentas, o que faz diferença é a forma como elas são utilizadas pra melhorar a vida das pessoas. E precisamos, cada vez mais, entender de pessoas: de emoções, de comportamentos, de desejos, de necessidades, de vontades, enfim, de gente.

 

(E pro finalzinho do texto: “Let the Good Times Roll”, do rei do blues Mr. BB King)

 

E eu não sei quanto a vocês, mas eu tô achando sensacional viver este momento. E, mais que isso, é sensacional trabalhar em agência de publicidade neste momento.

 

Valores humanos sendo resgatados, questões como representatividade, igualdade de gênero, tolerância às diferenças, racismo, homofobia, entre tantas outras, sendo debatidas como nunca antes. Pessoas lutando por individualidade e liberdade. A internet conectando, levando informação e dando voz às pessoas. Infinitas possibilidades de aprender mais e mais rápido. De trazer as pessoas pra dentro do processo criativo. De ouvir, de integrar, de fazer, de testar, de errar e de corrigir.

 

Como agências, temos a possibilidade (e a obrigação) de levar muito mais do que o filme de 30” e o anúncio de página dupla para os nossos clientes. ‘To disrupt ourselves’ e evitar que aconteça com a gente o que aconteceu com a Kodak. A tecnologia abriu as portas para soluções cada vez mais diversas praqueles mesmos problemas de comunicação. Precisamos estudar e conhecer o novo, as múltiplas alternativas e possibilidades, mas sem perder de vista que nosso negócio é sobre ideias e sobre pessoas. Não podemos perder jamais essa sensibilidade. A tecnologia deve ser meio, nunca um fim em si mesma.

 

Algoritmos, inteligência artificial e big data estão, sim, cada vez mais presentes na nossa vida e no nosso trabalho, mas não tiram a importância da criatividade. Aquela característica humana, tão reprimida pelo governo na sociedade futurista apresentada no livro, é cada vez mais importante e necessária nos dias atuais, principalmente quando ela gera ação – e se torna inovação. Criatividade com finalidade, boas ideias efetivamente aplicadas, que saem do papel e mudam pra melhor a vida das pessoas.

 

Ao contrário daquele do livro, esse mundo novo é, de fato, admirável. :)

 

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Cícero Rohr é diretor de atendimento da Master Comunicação e professor na Redhook School. Foi presidente do Grupo de Planejamento e Atendimento do Paraná (GPAPR) e eleito Profissional de Propaganda do ano 2014 no Prêmio Colunistas Paraná.

 

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