Da agência para a sala de aula

O CAMINHO INVERSO: DA AGÊNCIA PARA A SALA DE AULA

Cleo Kuhn | Professora no Centro Universitário UDC


  Foto: Centro Universitário UDC

Sempre fui apaixonada por comerciais, desde muito pequena decorava os jingles da TV, já tinha meus favoritos. Na adolescência, a certeza de que faria publicidade e propaganda, comecei trabalhando num jornal, logo passei para uma agência pequena, mudei de cidade para finalmente fazer faculdade de PP, dois semestres depois, tranquei. Eu tinha 20 anos recém-completos, e tudo que eu queria era aproveitar cada aula, estudar, ler os livros. Obviamente, alguém com esse comportamento em PP foi eleita o azeite da sala, não me misturava.

Voltei pra Foz, trabalhei em outra agência, em um projeto de revista, em produções, em tudo que eu poderia participar para aprender. Trabalhei muito de graça, recebendo pouco, não recebendo. De madrugada, final de semana, feriado. Fui pra Curitiba com a cara, a coragem, e nenhuma noção do que é mudar de cidade com 30 reais no bolso. LOUCA!

Desisti de fazer publicidade, mudei para curso de Letras. Entre numa das maiores agências do país, fiquei lá por 10 anos. Escolhi a docência. Abandonei tudo, profissão, amigos, apartamento. Voltei pra casa da mãe desempregada e com um filho no colo. LOUCA 2!

Formada em Letras e Educação Especial, estava determinada a dar aula nesses cursos, mas aceitei entrar no curso de Publicidade. CONTUDO, descobri na reunião de colegiado que a disciplina não seria língua portuguesa, como eu havia pensado, mas redação publicitária. PÂNICO. Eu nunca fui redatora.

Voltei para casa ensaiando como dizer para a coordenadora que eu não assumiria a matéria, mas as aulas começariam em pouquíssimos dias. Não tive coragem de pedir demissão antes de começar. LOUCA 3! Como eu, que nunca fui redatora, daria aula de redação publicitária?! Nem na área era formada! Precisava desabafar e guardar segredo ao mesmo tempo, corri para o Victor Afonso e o David Keller. Engoli o bullying, porque para eles a situação era divertida (no caso, o meu desespero).

No entanto, quando comecei a montar as aulas, a planejar os trabalhos, percebi gradativamente que sim, eu era formada, e pelos melhores professores. Estudei durante dez anos com profissionais com destaque no mercado, ajudei na formação dos estagiários, escutei bastante (parece mentira, mas eu sei escutar, além de falar), observei. Eu nunca havia sido redatora, mas tinha trabalhado com gente muito foda, Flavio Waiteman, Carlos Kenji, Victor Afonso, Artur Lipori. Sem falar nos diretores de arte e designers, David Keller, Marcos Minini, Suiane Cardoso, Juliano Domingues, Jorge Uesu. Ainda os demais departamentos Thaysa Bono, Cícero Rohr, Meri Penas, os fornecedores (fotógrafos, produtoras, diretores de cena). Minha formação publicitária foi excelente.

Esse relatório parece egocêntrico, mas na verdade acho que ele mostra que o caminho não é linear. Muito menos fácil e simples. Não para a maioria de nós. E, ao contrário do que pensei, o maior empecilho não foi o conteúdo em si, mas trazer os alunos para realidade, não só da publicidade, mas do mundo. Assim como era no curso que comecei, em 1996, ainda hoje pessoas escolhem o curso de publicidade achando que é a coisa mais fácil do mundo. Não tem cálculos, não precisa ler muito... Ledo engano. Tem que ler pra caralho, demanda inteligência lógico-matemática, sim, meus alunxs. Entre todas as outras inteligências. Trabalha-se MUITO.

É possível passar pelo curso levando nas coxas? Bom, é possível passar pela vida sem vive-la. Aí entra a questão mais importante da idade adulta, a escolha. Você pode fazer a faculdade mais ou menos e focar na experiência profissional. OK. Você está estudando, está aprendendo. Mas se você está só sambando nos botecos da esquina, lendo filosofia de redes sociais e tirando self de biquinho, sinto em te dizer que da publicidade, vc só terá o canudo. O mercado é exigente, e não tem pena, nem colo, nem docinho. Com sorte, uma máquina de café para as madrugadas.

Outra coisa, essa leitura equivocada de que a criatividade pertence aos cérebros iluminados da criação. Não. A criatividade está (ou deveria estar) presente em todos os departamentos da agência, não só na equipe de criação. Publicidade precisa ter fundamento, pesquisa, estratégia. Não se limita a saber usar os programas e copiar layouts bonitos com texto sem nexo, ou anotar o que o cliente disse. Existe um investimento ali, um dinheiro que não é seu. Publicidade é negócio, se o aluno não entende isso, é melhor fazer educação artística.

Tento mostrar a prática e a realidade desse contexto ainda durante o curso para preparar da melhor maneira possível para uma profissão em transição. Os livros estão aí na biblioteca, para serem lidos. Sim, LIDOS. Como já disse, é imprescindível dominar a língua portuguesa, porque email mal escrito fica muito feio. Gente sem conteúdo, também.

Nesse meu caminho acadêmico no curso de PP, tenho colhido bons frutos, existem talentos por aqui. Muitos assumem a responsabilidade da sua formação, dedicando-se e buscando sempre evolução. A exigência não faz de mim a professora mais popular. Mas como eu digo pra eles, quem ganha pra ser simpática é miss, eu sou paga pra ensinar. E é desse mal, que eu escolhi padecer.

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Cleo Kuhn é mestre em educação, professora universitária nos cursos de Publicidade e Propaganda, Letras e Pedagogia no Centro Universitário UDC. É também professora da educação básica no ensino comum e na educação especial da rede pública do Paraná. Entre as agências que trabalhou, a mais marcante foi a Master Comunicação, onde atuou como coordenadora de criação durante 10 anos. 

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