Da era de Cannes à era do gelo

Mercado Publicitário do Pará. Da era de Cannes à era do gelo.

Por Cristiano Pereira | Teia Consultoria e CCPA

belem, para, publicidade, marketing, redhook

Sempre que reclamar de suas poucas verbas para produzir um trabalho criativo, olhai para cima. Não, não é para o céu. Estou falando do Norte do Brasil, da Amazônia, mais especificamente, de Belém do Pará. E, neste caso, o ‘olhai’ também pode ser interpretado naquele sentido religioso, o do romeiro que suplica uma graça à Virgem de Nazaré: olhai por nós.  

Sempre que reclamar de seu casting limitado para aquelas interpretações e aquelas locuções fernandamontenegrianas, lembrai de nós, pobres pecadores – no sentido literal da sentença, que temos que disputar a tapas aquela apresentadora que algum concorrente descobriu não se sabe como. 

Mas, saiba, não foi sempre assim. Houve um tempo em que os Cristóvãos Colombos da publicidade paraense, mais conhecidos como Osvaldo Mendes, Abílio Couceiro, Ivo Amaral e mais uns dois ou três pioneiros, realizavam comerciais em filmes de 35mm com atores de ponta. Tudo bem que o mercado sempre foi dominado pelo varejo. Mas, sim, um varejo de respeito, de investimentos, de um período romântico em que os empresários pouco metiam o bedelho no trabalho do publicitário. Hoje, não. O acesso à informação de tudo o que é lado e sem filtro algum, tornou o trabalho do publicitário local uma legítima farinha do Ver-O-Peso, aquela que é mais barata que nas outras feiras de Belém e que todo mundo que passa perto não resiste e mete a mão.

Ah, no seu mercado também é assim? Mas as aves que aí gorjeiam, não gorjeiam como cá. Aqui, poucas empresas desfrutam de um departamento de marketing e, as que se dão a esse luxo, não dão autonomia para estes departamentos. Mas, então, nem sempre foi assim. Na década de 80, fomos Cannes Lion. É isso, aí. E também já ganhamos vários Profissionais do Ano, NY Festival e até já tivemos ‘O Publicitário do Ano’. Prova irrefutável de que pode nos faltar muitas coisas, mas nunca o talento. E, repito, tudo isso trabalhando predominantemente para o varejo, característica do nosso mercado.

Mas na Bíblia do publicitário paraense, milagres não podem ficar apenas no passado. Eles precisam acontecer todos os dias. Por exemplo, criar e produzir um comercial que seja tão bonito e bem produzido quanto o de uma grife internacional, mas com uma verba bem local, abaixo dos 10 mil reais, no máximo. Afinal, vai ser fácil. O cliente já ‘criou’ o comercial, enviando pra você uns 5 links do YouTube como referência. Agora, é só seguir a receita do bolo. Porém, você vai dizer que as interferências do gênero são bem comuns. E eu digo, tudo bem, dá pra suportar. Mas além disso e o drama das verbas cada vez mais ínfimas, temos também a carência de um polo industrial desenvolvido, a crise econômica e o divisor de águas off/online que massacrou nossas tão valorizadas comissões de mídia, principalmente dos impressos.

Para a publicidade local, foi algo como aquela chuva de cometas que culminou na era do gelo. Sim, tiraram o alimento básico da nossa cadeia alimentar. Agora, os dinossauros sobreviventes e algumas novas espécies tentam se manter a todo custo, buscando novas formas de remuneração, ao mesmo tempo que investem em departamentos de marketing digital para tentar criar uma nova era. Sim, amigo de outro mercado, estamos sentindo bastante o impacto e as premiações ainda vão sentir nossa ausência por um bom tempo.  A prioridade agora é a sobrevivência da espécie. 


---------------------------------------------------------------------------

Cristiano Pereira é paraense, graduado pela Universidade Federal do Pará - UFPA, publicitário há 20 anos, Redator da Galvão Comunicação e Diretor de Arte nas horas vagas, fundador do CCPA – Clube de Criativos do Pará e sócio da Teia – Consultoria e Social Media. Já trabalhou em sete agências paraenses com as principais contas públicas e privadas da região, conquistando os prêmios regionais Norte-Nordeste mais conhecidos. Atualmente, dedica-se também a projetos pessoais em e-commerce como o www.supermercado-online.net.   

 

 

Tags: belem, marketing, publicidade

voltar para Blog

show tsN fsN fwB center bsd b03s|tsN fwB bds uppercase b01n left|fwR tsN hide center|bnull||image-wrap|news|fsN fwR normalcase tsN fwB b01 bsd|b01 c05 bsd|news login fwR normalcase|tsN normalcase fwR|normalcase fwR|content-inner||