Foto publicitária, uma arte coletiva

Foto publicitária, uma arte coletiva

 Dico Kremer, fotografia publicitária, fotografia, redhook

No início foi o inventor. O desafio era descobrir como fixar uma imagem numa placa, numa superfície. O trabalho era solitário, parecido com o do monge em seu scriptorium. Eram raras as trocas de informação. Algumas vezes inventores por diferentes meios chegavam a resultados semelhantes. Na mesma época que Louis Daguere, na França, pesquisava os processos que mais tarde resultaram no que se chamou fotografia, Antoine Hercule Florence fazia pesquisas em Campinas, SP, com resultados semelhantes. Pesquisadores descobriram nos apontamentos de Florence que ele, sem comunicação com outros cientistas, tinha cunhado a palavra fotografia. Perdido no Brasil não pode ter seu nome inscrito entre os descobridores da fotografia.

No final do século XIX o inventor vestiu o hábito de artista. Até então o inventor, o artista, o inventor/artista eram tão sós com Robinson Crusoe em sua ilha, antes do Sexta-Feira. 

 

Com o desenvolvimento técnico e com fotografias mais elaboradas do ponto de vista artístico, o que antes era uma mera curiosidade, a fotografia viu-se alçada a categoria de arte. Não mais o mero registro mecânico do que se convencionou chamar realidade. Apesar de algumas discussões bizantinas, foi-lhe reconhecida a categoria de criação, de arte. Houve, com o passar do tempo, uma abrangência e, como consequência, uma segmentação. Isso foi devido ao intercâmbio cada vez maior de experiências, de informações, de comunicação. Ao que nos começos eram as paisagens, cenas urbanas, retratos, foram se somando as fotos aéreas em balões, documentação, fotos para jornais, de eventos, o abstracionismo na primeira e segunda décadas do século XX, fotos para fins científicos, publicidade.

Na fotografia para a publicidade ou propaganda, como é o caso das campanhas políticas, o fotógrafo sai da sua solidão criativa. Não é mais o o mago solitário e onipresente em sua criação. Aqui ele faz parte de uma equipe. É o autor da fotografia, mas em termos. Ilumina e fotografa com seu conhecimento técnico e artístico. Mas a informação, o briefing vem da agência de publicidade. Existe um longo caminho percorrido até esta informação chegar ao profissional. Do cliente ao atendimento, deste para o tráfego, daí para o departamento de criação. Depois de muita conversa, pesquisa, discussões, as peças são avaliadas por todos os envolvidos no trabalho. A seguir, departamento de produção, pedido de orçamentos, negociações, reunião de pré produção e sessão fotográfica. No estúdio, a equipe: pessoal da agência que vai acompanhar o trabalho, assistentes produtor(a), maquiador(a), modelo(s), enfim, todas as pessoas que, em maior ou menor número, farão parte do trabalho conforme a sua complexidade. Mais tarde, depois das aprovações, da agência e do cliente, a pós produção: recorte, tratamento, 3D etc.

Com isso quero dizer que não há o “autor da foto”. O que há são autores. O resultado é a somatória do esforço da equipe para entregar o trabalho que o cliente aprovou e que espera ter muito bem realizado. 

Existem casos onde a agência ou o cliente encomendam um trabalho fotográfico com criação própria do fotógrafo. Um briefing sem layout. No Brasil conheço dois casos, ambos meus amigos e com um trabalho criativo excelente. Deve haver mais. Na Europa e nos Estados Unidos é mais comum pois existem agentes que representam vários fotógrafos, cada um com a sua especialidade. O agente tem uma carteira de profissionais especializados para diversos tipos de trabalho: fotográficas com pessoas (modelos), alimentação, jóias, cenas externas, fotos aéreas e submarinas, transparências, grandes ambientes, objetos das mais variadas formas, tamanhos e cores, automóveis, caminhões, máquinas agrícolas etc. A partir daí ele mostra os portfólios informando os que trabalham com a equipe da agência de publicidade ou os que criam as imagens a partir de briefings sem layouts. Neste caso específico o fotógrafo é o aclamado autor.

No primeiro caso a autoria da fotografia publicitária é uma criação coletiva, sem um autor que comanda todo o processo. No segundo o autor é o próprio criador, com a ressalva de que discute o briefing com a agência ou com o cliente e, então, parte para a criação da imagem. Há ainda a compra de fotos de bancos de imagens, com a autoria, na maior parte das vezes, desconhecida ou a compra de fotografia disponibilizada por um determinado fotógrafo que a criou.

De qualquer forma a imagem faz parte de um processo criativo em que vários profissionais participam. Penso que no caso da publicidade é totalmente irrelevante a procura de um só autor. O que importa é que todos trabalhem com seriedade, competência, elegância e espírito de equipe. É o que cliente espera e que paga por isso.

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Dico Kremer é fotógrafo publicitário desde 1972. Foi o primeiro fotógrafo em Curitiba a trabalhar somente com fotos publicitárias. Em 1987 trabalhou nos estúdios da Volvo Truck Corporation emGotemburgo. De 1990 até final de 1997 residiu no Monte Estoril onde trabalhou para as principais agências e clientes de Portugal. Trabalha em Curitiba desde que voltou de Portugal e atende diversas agências e clientes. Assina uma coluna na revista Ideias, “Ensaio Fotográfico” onde publica trabalhos de fotógrafos do Brasil e do exterior. Escreve também sobre livros e filmes.

voltar para Blog

show tsN fsN fwB center bsd b03s|tsN fwB bds uppercase b01n left|fwR tsN hide center|bnull||image-wrap|news|fsN fwR normalcase tsN fwB b01 bsd|b01 c05 bsd|news login fwR normalcase|tsN normalcase fwR|normalcase fwR|content-inner||