No inferno, mas com ar-condicionado no quarto.

No inferno, mas com ar-condicionado no quarto.

Quando comecei a trabalhar com publicidade eu não pensava no impacto ruim que ela podia causar. Eu me via como um vendedor, não como um perigo para a sociedade. Tudo o que eu queria era trabalhar com algo divertido, onde eu pudesse ser criativo das 9 às 19 (doce ilusão) e receber bem por isso (doce ilusão 2).

O tempo passa, você ganha experiência e começa a ver as coisas com outros olhos. Você descobre que, sim, a publicidade tem impacto na sociedade. E que, sim, você pode ser um perigo. Um periguinho, perto de tudo que existe por aí, mas não deixa de ser um perigo.

A boa notícia é que nosso trabalho funciona. A má é que, todos nós, por mais éticos que sejamos, em algum momento da carreira tivemos que anunciar um produto que jamais consumiríamos. É inevitável. 

Por conta disso já garantimos nosso puxadinho no inferno. Já financiamos nosso barraco por lá e estamos pagando as parcelas com cada anúncio que criamos para vender refrigerante. Não adianta ajudar uma velhinha a atravessar a rua e logo depois fazer campanha de crédito pessoal para aposentados, com juros de 15% ao mês.

Mas antes de nos jogarmos pela janela da agência, quero lembrar que existe um jeito de diminuir nossa pena. Não dá pra escapar do inferno, mas dá pra negociar um ar-condicionado barulhento no quarto.

É porque agora realmente dá para fazer algum bem com a propaganda. Eu sei que grande parte das campanhas “do bem” ainda aparecem 2 meses antes de Cannes (o que nos faz cavar um buraco ainda mais fundo no inferno). Eu também tenho bode de 95% dos cases que começam com gente chorando. Mas existem os outros 5% valem a pena e mostram que a publicidade está indo para um caminho bem legal.

Longe de mim ser um guru da publicidade - destes que dizem há anos que a TV vai acabar ano que vem - mas acho que essa tendência vai ficar, mesmo que muitos publicitários ainda torçam o nariz para isso.

Deixar um impacto positivo não é uma tendência da propaganda. É uma tendência da sociedade atual. Nós publicitários é que estamos a copiando, pra variar. Por isso, acredito que as marcas que continuarem nesta linha vão continuar brilhando não só em festivais, mas com resultados de vendas também. Só que, para isso, ainda precisamos melhorar. Precisamos de ideias mais perenes, que façam o bem por mais tempo e não só nos 2 dias de filmagem do videocase. Precisamos de menos filmes com músicas tristes e mais soluções inteligentes. E lembrar que dá para fazer o bem contando uma piada.

É isso, amigos. Aproveitem bem a cerveja quente da Riviera, porque em breve estaremos todos tomando um drink ainda mais quente no inferno.

---------------------------------------------------------------------------
Marco Pupo é curitibano e trabalha atualmente como Diretor de Criação da Grey NY. Seu mais recente trabalho - “Guns With History” - conquistou 14 leões na última edição do festival de Cannes e ajudou a agência a aparecer em 2º lugar na lista “Agency of the year”, um feito histórico para o escritório americano.
Com 10 anos de carreira em Curitiba, São Paulo e Nova York o criativo trabalhou para as agências Ogilvy Brasil, Fischer&Friends, JWT, Heads, Master e Bronx. Foi eleito Young Lion pelo Paraná em 2011, ano em que ganhou seu primeiro leão em Cannes.

voltar para Blog

show tsN fsN fwB center bsd b03s|tsN fwB bds uppercase b01n left|fwR tsN hide center|bnull||image-wrap|news|fsN fwR normalcase tsN fwB b01 bsd|b01 c05 bsd|news login fwR normalcase|tsN normalcase fwR|normalcase fwR|content-inner||