O pós-digital pós-debate

O pós-digital pós-debate

 

O pós-digital pós-debate


Tive o privilégio de participar da mesa de debatedores após a palestra do Walter Longo, no último dia 3 de agosto, na Unibrasil, mais uma iniciativa louvável da Redhook School de Curitiba. O tema foi o conteúdo de seu recém lançado livro, Comunicação na era pós-digital, e contou com a eloquência, a elegância e o bom humor característicos do palestrante.

Walter Longo é um profissional que extrapola as funções de um bom executivo e se coloca na posição de pensador do negócio da comunicação e da sua vertente publicitária, compartilhando reflexões profundas e necessárias. Não é a primeira palestra dele que acompanho e, provavelmente, não será a última. Respeito e admiro.

Confesso que o título do livro me causou uma certa estranheza. Nada contra cunhar uma nova expressão ou frase de efeito, é um direito do autor, que fundamentou sua tese com muitos exemplos e metáforas maravilhosas, mas o termo pós-digital me pareceu um pouco precipitado.

A meu ver, estamos vivendo uma segunda onda da tecnologia digital e se a batizarmos de algo tão definitivo como "era pós-digital", de que chamaremos as próximas fases que estão por vir? Até porque nosso passivo digital é enorme. A Apple ainda está me devendo um headphone wireless. Toda vez que viajo de moto, tenho que lidar com um fio saindo do meu capacete, que limita meus movimentos e minha segurança.

No filme BladeRunner, de 1982, o diretor Ridley Scott projetou o futuro para 2020, em que humanos conviveriam com androides emocionalmente inteligentes, numa Los Angeles onde os carros voavam de um lado para o outro. Alguém acredita que em cinco anos estaremos flanando pelos ares?

Enfim, o foco excessivo na tecnologia, como se ela fosse o novo messias a ser seguido cegamente me levou a questionar o mestre, o que provocou o protesto veemente dos outros debatedores. Mas acredito que, como publicitários, não podemos olhar só para frente em busca de oportunidades interessantes para nossos clientes. Temos a obrigação de rastrear 360 graus o mercado e propor soluções de todos os tipos, mesmo fora do certame da comunicação.

Recentemente, fizemos isso ao propor à Prefeitura de Curitiba um dispositivo nos sinais de pedestres que aumenta o tempo de travessia na faixa para idosos e deficientes nas ruas mais perigosas. Conseguimos reduzir o número de mortes por atropelamentos, que era um dos objetivos do brief, em quase 30%, combinando campanha educativa com ações efetivas como esta, que utiliza uma tecnologia de mais de três décadas: os leitores magnéticos já utilizados nos cartões de embarque dos isentos da tarifa.

Um dos exemplos apresentados por Longo para traçar um paralelo entre digital e pós-digital foi o Cirque du Soleil, o que embasa perfeitamente a minha convicção. Se eles tivessem olhado apenas para a tecnologia do futuro, teriam provavelmente criado um espetáculo holográfico (o que não deixaria de ser interessante), mas o que fizeram foi olhar para trás e avaliar o passado, mantendo os aspectos positivos do circo convencional e eliminado os negativos, como a exploração de animais.

Olharam para um lado e viram o teatro. Para o outro, a música. E foi assim que reinventaram uma das formas de entretenimentos mais antigas da humanidade. Outro exemplo é o mercado do vinil, que está crescendo novamente, com gravadoras lançando e relançando álbuns não apenas para os saudosistas, mas também para os amantes da música que preferem os chiados à ausência de médios que a compressão digital não consegue entregar. A Crosley se tornou uma marca admirável fabricando pick-ups no estilo retrô para tocar os "bolachões", entre outros equipamentos com essa pegada.

Os jovens (entre eles meu filho de 19 anos) estão descobrindo as máquinas fotográficas analógicas perdidas nos armários dos pais e voltaram a comprar filmes e revelar suas fotos. Basta gastar algum tempo nas recepções dos laboratórios para vê-los chegar maravilhados com a redescoberta da película. Será que não existem oportunidades para alguma marca nesse segmento?

E por falar em jovens, fui questionado durante o debate sobre onde me atualizo com o universo digital e respondi que é com a nova geração de profissionais que chega ao mercado. Isso é um fato. E não é só na manipulação das ferramentas. Fui apresentado ao Snapchat há mais de dois anos por um redator de 21 anos que propunha uma promoção relâmpago, na qual as ofertas desapareceriam em 10 segundos, tempo suficiente para um screenshot do cupom, recurso que tinha acabado de ser lançado pelo aplicativo.

Longo é um autodidata que aprende sozinho navegando na internet e acredita que é preciso senioridade para gerar soluções maduras para os problemas dos clientes. Concordo que boas ideias saem de cabeças cobertas por cabelos brancos (ou já desprovidas de qualquer fio). Mas não consigo desconsiderar o ímpeto criativo dessa moçadinha que entra nas agências sem vícios e sem travas. Eles conhecem aplicativos e jogos que o preconceito dos mais velhos não permite experimentar.

Arrisco aqui um comparativo com a música. As grandes revoluções musicais foram feitas por bandas e compositores com seus vinte e poucos anos. Alguns seguiram se repetindo até os 70, mas foi na fase mais rebelde da vida que empreenderam as grandes transformações culturais. Seria injusto não dizer que aprendo muito com os mais jovens. E que ensino bastante, também, contribuindo com minha experiência para arredondar ideias e definir conceitos e estratégias. Foi assim que deixei de ser um Baby Boomer e hoje me considero da geração XYZ. Que venha o pós-pós-digital.

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* Renato Cavalher é vice-presidente associado de criação do Grupo OM Comunicação Integrada, composto pelas empresas OpusMúltipla, Brainbox, HouseCricket e Tailor Media. É também proprietário da 97 Graus, empresa de co-management e licenciadora do personagem Angelino, o anjinho distraído. Foi sócio fundador do Clube de Criação do Paraná e seu presidente no período de 2004 a 2008. Cavalher foi também diretor associado de criação das agências Exclam, Z. Publicidade e Master Comunicação, além de Chief Creative Officer do Grupo JWT Brasil.

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