Os desafios de agências médias e pequenas fora do eixo

Os desafios de agências médias e pequenas fora do eixo

 

Ricardo Schrappe, Diretor de Criação da Fuego Comunicação 

RED NEWS: Você sempre trabalhou com publicidade? Qual é a sua história? SCHRAPPE: Eu nunca soube que seria publicitário. Quando eu era menor, meu sonho era ser jogador de futebol ou piloto de corrida. Entrei na faculdade de Engenharia (de Produção, na USP de São Carlos), mais por inércia do que por vocação. Cursei um ano e meio e, antes de ficar maluco, voltei para Curitiba, certo de que cursaria administração. Na inscrição para o vestibular, a PUC só oferecia o curso de administração no campus de São José dos Pinhais, e eu não me via indo para lá todos os dias. Cursei Publicidade na PUC e Administração na Federal em paralelo por um tempo, até começar a trabalhar numa agência. Apesar de não saber nada ainda, já entrei como sócio na agência. Era um sócio faz-tudo. Lá aprendi a mexer em programas de editoração, como Corel, PageMaker e até num chamado Ventura Publisher, que era da Xerox. Eu criava textos, fazia layouts de jornais e peças simples, como rótulos. Meu primeiro jingle e meu primeiro outdoor foram criados lá, para o Bob's. Eu ainda estava no segundo ou terceiro ano da faculdade e já tinha peça na rua. Estava tudo errado. No último ano da faculdade, decidi que tinha que começar do jeito certo, então me candidatei a um estágio na Opus & Múltipla. Passei por todos os departamentos, da pesquisa à produção, do atendimento à criação. Quase fui convencido a ficar no atendimento, porque o pessoal achou divertido o meu jeito de escrever os jobs. Mas eu já sabia que queria trabalhar com criação e insisti em terminar o estágio lá. Foi ótimo. Tive o Penka como guru. Tive também a experiência única de trabalhar com o Rodrigues, o Desidério e o Gilberto, ícones da nossa indústria. A Opus foi uma bela escola. Todos com que trabalhei lá me ensinaram muito e me ajudaram a crescer. Da Opus fui para a Seta, depois para a JJ, depois ajudei no start-up de uma gráfica digital pioneira na cidade. Voltei para o mercado como Diretor de Criação da Exit, e de lá fui para os EUA, fazer um curso de Criação/Redação Publicitária. Fiquei dois anos em Atlanta. Tive convites para trabalhar numa revista, em Nova York, e também em uma agência do Alabama, que havia acabado de colocar seu trabalho na capa da Communication Arts. Fiquei balançado, mas minha ideia era voltar para o Brasil. Voltei e logo fui contratado como redator pela Loducca Sul, dirigida pelo Mario D'Andrea. E aí foi outra escola. Duplei com o Fabio Miraglia, com o André Brik (hoje defensor do trabalho em casa - blog Go Home), com o Marc Schwarzberg, criei para grandes clientes, coloquei minha primeira peça no CCSP (e primeira da agência, também), ganhei o Profissionais do Ano, da Rede Globo, além de outras conquistas. Escrevo em primeira pessoa porque fica mais claro, mas o trabalho é sempre feito em grupo, no mínimo em dupla. Não existe cavaleiro solitário em Publicidade. RED NEWS: Quanto tempo de mercado tem a Fuego, qual o perfil da agência e clientes? SCHRAPPE: Depois de quase dois anos na Loducca, resolvi que era hora de mudar. Não de agência, mas de função. A ideia era abrir a minha própria agência. E aí nasceu a Fuego. Chamei o Renato Kadota, meu irmão oriental e excelente diretor de arte, para ser o meu sócio e fomos à luta. Confiantes na nossa proposta, abrimos uma agência sem ter nenhum cliente na manga. Com o tempo e muita ralação, fomos ganhando clientes. A Fuego, então, foi fundada em 2003. Neste mesmo ano ganhamos as contas do Curso Acesso, da Clear Channel e começamos um trabalho com a Rede Accor de Hotéis. Desde o início, a ideia era criar uma agência com qualidade criativa à altura das maiores, mas voltada para o anunciante que não poderia ser atendido pelas grandes agências, por uma questão de custos e até de importância dentro dessas estruturas maiores. Isso, claro, tinha o bônus de um mercado com demanda reprimida, mas também o ônus da falta de cultura de comunicação. A Fuego tem uma filosofia de trabalho transparente. Aqui nada se esconde do cliente. Não pedimos e não recebemos comissão de fornecedores, não aceitamos presentes, viagens ou outros mimos. Isso nos dá total independência no momento da escolha do fornecedor. Temos um respeito muito grande pelo cliente e pelo mercado como um todo. Inclusive, claro, por quem batalha com a gente no dia a dia, os funcionários. A Fuego tem 11 anos de vida e sabe quantas reclamações trabalhistas já tivemos? Nenhuma. Pelo contrário, temos uma ótima relação com todos que passaram por lá. Alguns profissionais já foram ter experiências fora (até por estímulo nosso) e voltaram. Outros recebem propostas salariais melhores e recusam. E isso acontece porque fazemos questão de manter um ambiente saudável, leve, divertido, ainda que profissional. Isso acaba tornando a equipe mais unida e mais motivada. Os clientes também ficam muito tempo conosco. Acesso, por exemplo, está desde o final de 2003. Mustang Sally desde 2004. Omar Calçados desde 2008. E por aí vai. Hoje também atendemos Prata & Arte, Versátil Andaimes, FasTracKids, Chaves Na Mão e Tectrans. RED NEWS: Você é conhecido como um cara gente fina, tem paciência pra ensinar, é super participativo, ajuda todo mundo. Qual o perfil do profissional preferido do Ricardo Schrappe pra trabalhar na Fuego? SCHRAPPE: Ajudo quem merece, quem mostra disposição para aprender, quem está determinado a ser um profissional melhor. É a minha contribuição. Já passei por diversas situações que não precisam ser repetidas por quem está começando agora. Não custa dar dicas e orientar quem busca informação. Sobre a escolha do profissional, um bom currículo ou um bom portfólio ajuda sempre. Mas não adianta ter um bom currículo/portfólio se o candidato não for uma boa pessoa. O melhor redator do mundo pode bater à nossa porta, mas se ele for um grande babaca, pode ter certeza de ele não trabalhará na Fuego. Talento é importante, mas caráter é fundamental. RED NEWS: Nem todo criativo tem também o perfil de gestor. E você, como empresário, precisa fazer isso. Quais são as maiores dificuldades que você encontra como gestor e como faz pra resolver? SCHRAPPE: Pois é. O primeiro problema é o afastamento natural daquilo que você mais gosta de fazer, que é criar. Quando você tem uma porção de questões burocráticas para resolver, fica difícil separar um tempo para criar. Pior, é muito difícil sair do "modo gestor" para o "modo criativo" num mesmo período do dia. Difícil e pouco produtivo, pois sua mente está funcionando de um jeito diferente, mais lógico, que por essência é menos criativo. O ideal é deixar o início do dia para criar e resolver os pepinos da gestão para o período da tarde, mas nem sempre isso é possível. A gestão em si é outro desafio. Num certo momento senti falta de uma formação mais voltada à administração, aí fui fazer um MBA em Gestão de Negócios. O curso me deixou mais seguro em diversos aspectos. As dificuldades, porém, se renovam sempre. E num país que parece ser contra o empreendedorismo, os desafios vêm de todos os lugares, principalmente do Governo e seus impostos acachapantes. RED NEWS: A sua agência está em um mercado menor, que já perdeu e continua perdendo muitas contas pra mercados de fora, especialmente São Paulo. A que você acha que se deve isso? SCHRAPPE: Vejo dois movimentos maiores acontecendo. O primeiro é o encolhimento do nosso mercado por motivos diversos, que incluem a própria incapacidade das agências locais de provarem que podem gerar valor para os anunciantes locais. Não é falta de qualidade. Temos muitas agências boas e profissionais qualificados, tanto que muitos são contratados pelo mercado de São Paulo. Creio que falta um pouco de visão por parte do anunciante que, quando passa a ter uma verba razoável, prefere ser um cliente pequeno numa grande agência de São Paulo a continuar com a agência que o ajudou a chegar neste patamar. Isso reflete um pouco da cultura curitibana, talvez também da brasileira, que valoriza o que é de fora em detrimento do que tem na sua terra. A gente é assim. Idolatra qualquer jacu barulhento importado, muitas vezes mesmo sem saber o que ele está cantando, e dá pouco valor para os músicos locais. A juniorização do marketing nas empresas também é um fator que explica esse êxodo. O cara se sente importante sendo atendido por uma agência premiada de SP. Talvez isso o faça parecer mais competente do que realmente é. O júnior do marketing também chora por 100 reais e toma decisões por centavos. É um problema. Mas não é só culpa dos anunciantes. É das agências também. Em parte porque muitas não se impõem frente ao cliente, não argumentam o que consideram certo, preferindo fazer tão somente o que lhes é pedido, pois "o cliente está pagando". É uma visão totalmente equivocada. Também temos agências que nasceram aqui, fizeram história, cresceram aqui, ganharam contas nacionais e hoje parecem ter vergonha de ser daqui. Isso não ajuda a valorizar o nosso mercado. Pelo contrário, faz com que ele pareça menor do que é. Bons tempos o da Gemini, que se orgulhava de dizer (e mostrar!) que havia vida inteligente fora do eixo. Regredimos de lá para cá. Continuamos tendo vida inteligente fora do eixo, mas parece que perdemos o orgulho de soprar isso por aí. RED NEWS: Você já trabalhou fora daqui? Por que optou por abrir sua agência e permanecer no mercado paranaense? SCHRAPPE: Trabalhava na Loducca em Curitiba e passei alguns dias cobrindo férias de redatores da agência em SP. Mas foi só. Abri a Fuego aqui porque minha base toda estava aqui. Parecia mais fácil naquele momento, ainda que o mais fácil nem sempre seja um bom caminho. Mas isso vai mudar. Vamos abrir novos mercados, buscar novos nichos, em outras cidades e estados. Mas nunca vamos deixar de ter orgulho e de divulgar que somos do Paraná. Até porque isso é verdade, e nada é mais forte do que a verdade, principalmente em comunicação. Siga o Schrappe no Twitter ou no Facebook.

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